Esse lugar é pra mim? - O que há de errado comigo?

15:10


O papo de hoje é meio que um desabafo. Há algum tempo queria abordar esse assunto, mas não sabia como. E o melhor jeito que encontrei é contar sobre mim e minhas experiências.




Quero falar um pouco sobre espaços e lugares que muitas vezes, e até hoje acho que não são pra mim. Quando comecei a trabalhar, comecei a frequentar espaços que antes não frequentava. Muito nova eu queria passear, comer em todos os lugares e viver experiências novas.

Neste momento da minha vida eu já estava junto do meu marido (branco) e ele era a minha companhia nestas aventuras. Comecei a frequentar esses lugares e comecei a perceber que muitas das vezes eu não era bem tratada ou que o tratamento feito a mim era diferente a outras pessoas.

Essas incógnitas começaram a preencher minha cabeça e comecei a ter a real noção de que isso era preconceito. Comecei então a querer me impor nestes espaços. Eu chamava o garçom, eu dava os comandos, etc. Mas isso era só na minha cabeça, pois, ficava minutos com a mão levantada e os garçons muitas das vezes desconfiavam do meu pedido.

Andava pelos shoppings, entrava nas lojas e nada de me atenderem. E comecei a me impor também nesses lugares. Mas como o preconceito é perverso, comecei a me esconder da sociedade. Uma mulher que adorava sair, não gostava mais nem de ir à padaria, e ir a um restaurante era um martírio.

Neste processo comecei a assumir os meu cabelo crespo e essa situação foi ficando cada vez mais contundente. Não saia mais para passear e comer, só se fosse no carrinho de cachorro quente na esquina.

Neste processo comecei a construir minha identidade como mulher negra e desconstruir alguns conceitos. Comecei a me perguntar o que tinha de errado comigo. Porque eu tinha que deixar de frequentar lugares somente porque a sociedade não me aceitava lá.

Foi um processo de construção muito difícil para mim. Eu chorava quando chegava em casa de um jantar que era pra ser maravilhoso e foi nítida a falta de atenção e respeito por quem me atendeu. Eu entrava e saia das lojas sem levar o que queria porque ninguém me atendeu. E sempre na minha cabeça soava a frase: O QUE TEM DE ERRADO COMIGO?

Com o passar do tempo e da minha construção social, comecei a perceber que nada iria mudar se eu frequentasse ou não aqueles lugares. Então comecei a voltar a frequentar lugares onde antes eu não era bem vinda, e entrava de cabeça baixa. Comecei a entrar nas lojas, escolher e levar minhas próprias peças no caixa, me recusando a dar comissão para quem não me atendeu. Comecei a frequentar congressos e palestras onde muitas das vezes tinham quase nenhuma pessoa negra.

Comecei a entender que o nosso corpo e estética é símbolo da nossa identidade negra, e que quanto mais ela está evidente mais a sociedade vai se afastar de nós por isso.

Se hoje eu ocupo todos os lugares? A resposta é: NÃO! Confesso que não consegui vencer tudo isso. Determinadas regiões da cidade eu não frequento e sim chego na porta de um lugar e penso suas vezes se devo entrar. Sou uma mulher empoderada que carrega consigo as mazelas de uma sociedade preconceituosa e racista.

Não, não é porque você é politizada (o) e empoderada (o) que as sequelas do preconceito sofrido não vão vir à tona. Eu entendo sim, quando pessoas deixam de frequentar lugares, e que isso não tem a ver com vontade, e sim com as experiências de vida.

O QUE TEM DE ERRADO COMIGO? NADA. Quem está errado nisso tudo é a sociedade. Mas cabe a nós vencermos essas barreiras juntos, e ocuparmos cada vez mais os espaços.

Espero que possa ter passado um pouco desse questionamento que sempre faço a mim. Que possamos juntos apoiar um ao outro nestes momentos difíceis. Obrigada. 



VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR DE

0 comentários

SUBSCRIBE NEWSLETTER

Get an email of every new post! We'll never share your address.

INSTAGRAM @dannymendes10

Blog Archive