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Entrevista com Rosane Pires Viana- Literatura e a Juventude Negra

14:35


Nos dias 20 a 24 de Julho de 2016 aconteceu em Belo Horizonte a 1° Mostra da Mulher Negra em Homenagem à Conceição Evaristo. Idealizada pelo Instituto Cultural Casarão das Artes a mostra teve como destaque principal o protagonismo da mulher negra em diversos aspectos no Brasil. Como parte da mostra tive o prazer de Entrevistar uma das Palestrantes.

Rosane Pires Viana, é Formada em Letras pela UFMG e Mestre em Literatura pela mesma Universidade. Ela é professora da Educação de Jovens e Adultos da Prefeitura de Belo Horizonte e é Militante na Rede Afro LGBT Mineira. 

Danielly Mendes á Esquerda e Rosane Pires á Direta

A Literatura é uma área ampla, dentro dela em que áreas você trabalha atualmente?

Eu faço análise crítica das obras, faço pesquisa acerca dessa produção, e venho de uma trajetória de atuação como professora de Língua Portuguesa e Literatura. Então na realidade a minha produção ela é para as entrelinhas da Literatura.

Como você acha que a literatura pode atingir /chegar aos jovens negros?

Aqui no Brasil a gente tem uma questão que é um complicador para que a literatura chegue até os jovens, que é a parte da produção dessa literatura. Infelizmente a gente não tem um projeto de governo para que as editoras produzam com uma facilidade maior. Então os livros saem muito caros. Diferentemente de outros países, em que você tem toda uma estrutura para que o material para a produção de livros seja mais barato, e aí essa produção chega com mais facilidade na mão de todo mundo. Então comprar livro hoje é um luxo. Você entrar numa livraria com R$ 150,00 reais e comprar três livros está muito bacana. Vamos pensar, nossa juventude não tem poder aquisitivo para adquirir livros, então a gente tem esse funil para ser ultrapassado. Fico pensando que a literatura é uma grande estratégia de luta, e infelizmente não está nas mãos dos jovens por conta da questão financeira. E eu acho que o governo não tem interesse de fato em facilitar essa situação.

Você acha que se nós pudéssemos fazer um limiar e essa literatura chegasse ao povo negro, isso teria impacto em outras gerações?

Caramba, total, total! Tenho clareza absoluta e certeza total disso! A Literatura ela é de fato uma grande estratégia de empoderamento. Digo isso em função da minha história, desde de criança pude acessar livros das bibliotecas das escolas públicas, a minha trajetória de formação é toda em escola pública, então isso facilitou a minha vida. É um pensamento focado nisso, de que a literatura alteraria a vida de muitos jovens. Fico entendendo que eu tenho na minha bolsa ali dezesseis livros, de uma coletânea chamada Cadernos Negros de uma editora chamada Quilombhoje, não sei se vocês já ouviram falar.

Eu nunca ouvi falar, nos conte mais sobre esta editora.

Quilombhoje é um grupo de escritores negros que produz a sua própria literatura há mais de quarenta anos. Cada ano é uma edição e por ano eles trocam poesia, poema e no outro ano é contos. E este material ele circula entre a militância negra, e a gente contribui para produzir. E isso faz com que a Conceição Evaristo esteja onde está hoje. A primeira vez que eu li Conceição era Cadernos Negros Nº 13, eu li um poema dela e falei assim: caramba o que que essa mulher tá falando aqui! E aí criou um impacto tão grande dentro de mim que eu falei gente isso é muito bom, vou ouvir mais essa mulher mais sabe, vou seguir, igual vocês que tem esse canal, o Blog. Então se eu abro lá, leio um texto interessante isso reverbera dentro de mim o tempo inteiro. É de um poder extremo, a literatura é de um poder extremo. Eu acho assim se a gente tivesse que pegar em armas, eu i a querer um livro logo de cara. Ficar na trincheira com um livro.

Com a falta de recursos para adquirir livros, o que você acha que poderia ser feito, e quais as ferramentas para contornar essa situação?

Uma ideia bacana é criar uma rede de trocas. Eu acho que é isso, uma rede de trocas da Literatura Negra para o empoderamento da juventude. Assim vocês vão ter aliados pelo país inteiro. Eu mesma tive há uns seis ou sete anos uma livraria, chamava-se Soba Livraria Étnica. E eu tive uma série de contribuições, doutores e mestres que se formaram a partir de livros que compraram comigo. Então todos eles têm o desejo muito grande de devolver isso, então a gente ia conseguir isso com muita facilidade. Se vocês puxam, vocês podem contar comigo.

Dentro da Literatura Negra, puxando para a questão de gênero. Você acha que há mais homens do que mulheres produzindo literatura?

A escrita, eu acho que agora nesse momento em 2016 a gente tá pareado com os homens, entretanto a visibilidade ainda é masculina. Eu abri um site essa semana que falava assim: 'Os quinze maiores escritores negros brasileiros'. Quinze, e só tinha duas mulheres, e não são negras. Então por aí a gente vê, na Literatura Negra quase todos os títulos que circulam hoje, são de homens, as mulheres ainda têm que batalhar para fazer a publicação. Então a gente infelizmente ainda tem um machismo que impera na produção literária. Os homens brancos, as mulheres brancas, os homens negros. A mulheres negras ainda estão na base da pirâmide com uma dificuldade muito grande de mostrar o produto que ainda tem para mostrar.

Viviane Olly a Esquerda, Rosane Pires no Centro, Danielly Mendes a Direita
Esta entrevista teve autorização da entrevistada Rosane Pires para ser publicada. Nestes várias dias da mostra, várias blogueiras do Clube de Blogueiras Negas de Belo Horizonte, entrevistaram outras mulheres Negras importantes para a nossa cultura Negra. Agradeço a Amanda do Blog Sem Cereja e a Vivi do Blog Blackacheadas, por terem me auxilado na condução desta entrevista. Agradeço também a Rosane Pires pela atenção e cordialidade e ao Instituto Cultural Casarão das Artes pelo convite. 

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